Eu sei, você sabia.

 

De que me adianta você me pedir pra ser um cara legal

Se quando eu te ligo eu só falo com a caixa postal?

E mais nada, mais nada. Tem nada não.

 

Essa é só mais uma história pra te fazer relembrar

Quando eu te peço abrigo é em você que eu quero meu lar.

E mais nada, mais nada. Tem nada não.

 

Eu vou te dizer... um dia.

Não posso prever, não tenho esse poder

Mas eu sei, você sabia!

Eu tenho medo.

Cada vez mais eu tenho medo.

Quando eu penso na ignorância.

E ainda mais quando eu penso que a ignorância é mera opção.

E mais, quando muitas pessoas conseguem ser ignorantes juntas.

 

Eu tenho receio.

Cada vez mais eu tenho receio.

Quando eu penso numa solução.

E ainda mais quando sabemos que a solução é simples e justa.

E mais, quando quem deveria solucionar só constrói mais erros.

 

Temos que ter fé.

Cada vez mais acreditar.

E, além de acreditar, lutar.

Bradar, para os muitos surdos, com armas de bom senso e inteligência.

E mais, transmitir a luta para que outros tenham o mesmo discernimento.

 

 

Música em homenagem ao pai e filho que foram espancados por pessoas que pensaram que eles eram um casal gay.

E em repúdio àqueles que não cultivam o bom senso e não colhem a inteligência.

Falta na sociedade brasileira a aversão ao erro!

Estava procurando informações sobre chapéus e me deparei com um chamado caxangá, que é aquele usado por marinheiros. No mesmo instante me veio em mente a canção infantil: “escravos de Jó, jogavam caxangá, tira, põe, deixa ficar, guerreiros com guerreiros fazem zigue, zigue, zá”. Seria nessa canção uma alusão ao fato de que os escravos que estavam nos navios, levados para as guerras, roubavam os chapéus dos marinheiros para fazer brincadeiras? E lá ficavam eles, os guerreiros, esperando a próxima batalha e jogando caxangás, tirando-os e pondo-os à cabeça, numa alegre cantiga de descontração. Seria essa uma boa explicação.

 

 

Foto por Alfred Eisenstaedt, o marinheiro e a enfermeira.

Times Square, no dia da rendição do Japão na II Guerra.

Era de uma cidade miúda e nela havia algo que do mundo escondia.

Anos, carregou sua boneca de pano acima-abaixo. Sinhá, a dona dos seus sonhos.

 

No seu mundo não havia somente aquelas sombras brandas do jardim.

Nela havia mais agitação que aquelas das folhas.

Havia mais caminhos que só os de terra?

Queria saturar das coisas, não da falta do que fazer.

 

Ali, braços na janela, brisa leve, copas altas, e aquele incômodo, aquela inquietação.

 

Na manhã juntou na mala seus vestidos, seus colares, e a Sinhá ficou na cama, fitando aquela menina que corria corredor afora e estalava madeiras pela escada.

 

Juntou na porta uma poeira quando bateu pé afora.

 

Agora, beijos vermelhos, era ela sua própria Sinhá.

De miúda, flores no cabelo, só a lembrança.

Mundo grande, meu Deus! Agora, todo seu!

 

 

 

 

In stereo: Multishow ao vivo – Vanessa da Mata

O sol tentava tirar as sombras deles e daquilo que estava pesado ao redor. Ela se auto protegia. Ele buscava coisas pra ver. Ela tentava ver a si mesma. Ele cactos, ela rama. Ele suculento, ela briseira. Por instantes os espinhos eram só os externos. Os rasgos não sangrariam enquanto houvesse platéia e a vida, dos outros, pudesse dizer olá sentada logo ali abaixo da marquise longa que sombreava a visão, daqueles dois, de perto. O semblante dele era como se houvesse algo a ser dito para ela. Alguma vogal rodeava a língua, prestes a saltar a boca e começar alguma conversa. Mas, apenas consoantes surdas, onomatopéicas, mostravam alguma surpresa pela singularidade daquela manhã de pessoas domingueiras de arranha céus. Ela, de uma forma fenomenalmente feminina, sabia o que se passava na cabeça dele e deixava passar por si as palavras em branco, enquanto estavam a sós naquele singelo banco, que era a única coisa concreta que os suportava naquele momento.

 

Era peculiar o modo como combinavam. Como uma parede esquecida pelo tempo que um grafite coloca toda cor e sentimento. Uma parede grande, com intrincadas figuras e muita criatividade pra sustentar tantos olhares que passam por aquelas vias. Já se podia similarizar a pele riscada pelo tempo com as paredes marcadas de movimento. E, na imagem que cada um via daquelas paredes, tudo se completava.

 

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